Quem conta um conto...
Ademir Moreno Aguilar


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O QUE É O PROJETO PENINHA?

=> é contação de história
do livro Extinção

=> é música do Peninha

=> é oficina de origami
(faça o seu Peninha)

=> é venda de livros autografados


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Ouça a música especialmente
composta para o Peninha
(por Edmilson Bernardinelli)

Eu li a história
do passarinho Peninha...
Numa grande árvore
morava com os pais
e seus irmãos
Junto com seus amigos,
o Azulão, o Biquinho,
o Grandão e o Rabinho,
seu irmão Soneca,
brincavam felizes
na Grande Clareira...

Pega-pega, esconde-esconde, corrida,
assim era a vida
Uma grande festa,
uma grande alegria,
era só diversão!!

Peninha voava, voava e cantava
Tinha uma vida feliz
Com os seus amigos
Peninha brincava,
era muito feliz

Mas de repente tudo mudou
O que aconteceu então?
A estória completa
está em um livro
chamado "Extinção"




Livro Infantil "Extinção"
Ilustrado
Bilingue (Português-Espanhol)

Texto: Ademir Moreno Aguilar
Ilustração: Cláudio Martins

3º lugar no
IV Concurso de
Cuentos Infantiles
"Los niños del MERCOSUR" 2007/2008

ENTRE NOS SITES ABAIXO E ADQUIRA O SEU:

CPEC CULTURAL
SURLIVRO
LIVRARIA CULTURA
PAPARICOS & CIA _____________________

Entre no link abaixo e
baixe o livro "Duas Horas",
gratuitamente:



ROMANCE "DUAS HORAS":

2007
1º lugar no
Concurso Criativo
Promovido pelo
"Projeto A Turba Literária",
que divulga obras literárias
não publicadas ou
publicadas de forma
independente

http://www.aturbaliteraria.com

2009
3º lugar no
“Concurso Internacional
de Literatura”,
categoria romance
(Prêmio Jorge Amado)
Promovido pela
União Brasileira
de Escritores do
Rio de Janeiro
UBE - RJ

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PoesiaOrgânica
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04/01/2010 00:12

CRÔNICA DO RASGO

Tenho que tirar algum lucro desta situação. Rasgar a calça deste jeito, e logo assim no começo do dia... Ah! Isto merece registro! É por esta razão que estou escrevendo. Daqui sai uma crônica. É o lucro que posso obter desta minha imbecilidade.

Sentado na poltrona do ônibus que me leva ao serviço, lembro-me do momento do rasgo. É mais memória auditiva do que visual. Recordo-me do silêncio sendo violado pelo som. Um som muito longo para um rasgo. Muito alto também. Qualquer decibel a mais, qualquer décimo de segundo a mais na duração, representa muito, quando se trata do som de um rasgo...

Parece que ainda estou ouvindo. O rasgo que não acaba nunca. Acordando aqueles que estão dormindo, tranquilamente, em suas poltronas, recostados em seus encostos reclinados, na vibração suave do motor do ônibus, continuando o sono da cama e, de repente...

O imbecil aqui resolve sentar...

Mas antes entra no ônibus, cumprimenta o motorista e os colegas de sempre, avança pelo corredor e senta-se provisoriamente, em uma poltrona do lado do corredor. Tira o fone de ouvido do celular, pois costuma ouvir notícias em sua caminhada diária de vinte minutos até o ponto onde pega o coletivo da empresa. Guarda o fone e o celular na bolsa. Enquanto faz esta atividade, nota que está sentado em uma poltrona muito para trás. Pensa que é porque vários lugares estão vagos no lado direito para quem entra no ônibus, o lado em que sempre senta. Sim, vários lugares vagos certamente desorientam, fazem com que a gente perca a referência. Então olha para o outro lado, para onde está sentado um determinado colega que lhe serve de orientação, e calcula a posição em que deve se sentar. É preciso avançar mais uma fileira.

Tudo vai colaborando... O imbecil, que sou eu, coloca a bolsa no maleiro, já na direção da poltrona da frente, pois quer manter a posição de costume. Olha para a poltrona ao lado da janela, o lugar em que pretende sentar, e vê o apoio para o braço que separa os dois assentos, vê este apoio baixado... Errar é humano, mas persistir no erro é burrice. Está perto de cometer o mesmo erro. A história se repete. Já faz tempo. Um rasgo também. Só que menor que o de agora...

Movimento calculado, mas mal calculado. É um pouco de preguiça, pressa, economia de movimentos, sei lá o que é! Só sei que o tal apoio para o braço fica como está. Não o levanto. E ele fica lá, imóvel, seguindo o eterno costume dos objetos inanimados. Mas acho que por dentro está rindo, torcendo para que aconteça como da outra vez. Deve estar olhando para o bolso de minha calça, esperando ansiosamente que ele se abra no ângulo exato, justamente no instante em que não dá mais para voltar, quando as nádegas estão a um palmo do assento. Daí pra frente é só sentar mesmo. Pode enganchar bolso ou qualquer outra coisa. Não há volta. E o apoio para o braço fica lá, só esperando para entrar no bolso direito da minha calça social...

O rasgo. Som muito alto. Muito longo. Excesso de decibéis e de décimos de segundo.

Daqui para frente é só esconder a enorme abertura ao longo da linha do bolso. Ventilação natural... Daqui para frente é só estudar cada movimento e arrumar uma maneira de ninguém perceber. E pensar em algum modo de consertar, de pelo menos minimizar o estrago...

Daqui pra frente é outra estória. Talvez um conto... É, dá um conto mesmo... Mas como estou escrevendo uma crônica, é preciso parar por aqui. Porque ela já está pronta! É, isso mesmo! A crônica do rasgo está pronta!


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13/12/2009 01:31

LINHA 01

Marginal Pinheiros. 17h34min. Sexta-feira. Onze de dezembro de 2009. Estou voltando do serviço. Sentado em uma poltrona do ônibus que a empresa disponibiliza aos funcionários. Linha 01, a mais longa. De Alphaville até São Bernardo. “A volta vai ser longa”, é o que penso. Está tudo congestionado.

No DVD, “Jogos Mortais”. Não vejo. Apenas ouço os gemidos e gritos, contrastando com a voz cadenciada e penetrante do torturador.

Estou no assento da janela. Ninguém ao meu lado. Olho para fora e vejo alguns riscos d’água no vidro. Pouco antes do final do expediente, um colega meu informa que está chovendo bastante em São Bernardo e em mais outro lugar que não me lembro. “Cento e dez quilômetros de congestionamento”, diz ele. “Se está assim a esta hora...”, conclui, ou melhor, deixa para nós a conclusão do que nos espera nesta volta para casa.

Meu ponto de descida é em São Caetano. Até lá, outro filme na tela do DVD. O segundo. Talvez até o terceiro. “Espero que coloquem algo mais leve”, é o desejo que me vem à mente. Continuo a não olhar para a tela. Mas devo confessar que a sonoplastia do “Jogos Mortais” é realmente impressionante... O terror escorre de cada som, grito, choro ou gemido.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

Av. Bandeirantes. 18h36min. O primeiro filme acaba. Vejo os últimos dez minutos de terror. O seguinte começa com uma cena de um casal em plena e prazerosa relação sexual. Enquanto isto, o filho levanta-se do berço e vê a intimidade dos pais. Parece ter uns dois anos e certamente nada entende do que está acontecendo. Nenhum dos dois sequer percebe que estão sendo observados. O prazer se aproxima do clímax. Tudo em câmera lenta. Os adultos em êxtase e o bebê, que agora resolve se aproximar da janela aberta... Sobe em algum móvel e, com o seu pequeno urso de pelúcia, acaba por ficar de pé no parapeito da janela. O inocente e belo ser, rosto redondo, cabelos loiros, atira-se no espaço. As cenas se intercalam. Foco no prazer da mãe, totalmente entregue ao seu orgasmo. Foco no pequeno corpo que cai, os cabelos balançando ao vento. Por um instante, logo no começo da queda, percebe-se também o seu prazer. Talvez esteja se sentindo livre, capaz de voar. Movimenta braços e pernas enquanto percorre toda a lateral do prédio... O impacto é visto de longe, por cima, pouco se pode distinguir. Parece que ocorre um espalhamento de massa, que adquire, na filmagem em preto e branco, uma coloração mais escura... Temos a impressão que o choque da criança no solo acontece no exato instante do maior deleite sexual de seus pais, ou melhor, de sua mãe. As cenas procuram ressaltar o prazer da mulher... E, por fim, corta-se para um close lá embaixo. Não, não é do pobre menino, que mal conseguimos imaginar como deve estar. O foco é somente sobre o pequeno urso de pelúcia, cercado de neve...

O filme continua, mas a narração do mesmo acaba por aqui. Não estou escrevendo sobre este ou qualquer outro filme. Escrevo sobre a volta, a longa volta do serviço. Que não fica tão longa porque nos distraímos com várias obras cinematográficas...

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

19h04min. Ligo para casa. Aviso que podem ir jantando, não precisam me esperar. “Sabe aquele ponto da Bandeirantes que passa perto do Metrô? Então, eu estou aqui ainda...”.

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

19h28min. O ônibus atravessa o rio dos Meninos. Estamos em São Caetano do Sul! 19h36min. Desço no meu ponto. Depois da rotineira caminhada, chego em casa às 20h02min. Três horas voltando do serviço. Somando com as duas de ida, temos cinco horas... É isso. Nada mais tenho a dizer. Este relato é despretensioso mesmo. Serve somente para descrever uma das inúmeras e longas voltas do serviço em uma sexta-feira qualquer...

Quanto ao filme, se vocês estão curiosos em saber o que acontece com os pais da criança que voluntariamente se atira pela janela do apartamento mas involuntariamente se suicida... Bom, que tal você pegar a Linha 01 também? Não pode? É mesmo... O que? O nome do filme? Não sei. Deixa pra lá! Uma boa e paciente volta do serviço para todos nós!


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15/11/2009 20:52

POÇO SEM FUNDO

Estou sem ideia. Tenho que escrever algo para colocar no meu blog. Estou na sala de espera do consultório dentário. Quero escrever, mas estou sem ideia. Preciso escrever.

Não tenho nenhum patrão me cobrando. Mas trata-se de compromisso. Faz quase um ano que decidi escrever sempre coisas novas para pendurar no blog. Nada de ficar remexendo em textos antigos, procurando algo que se aproveite. De uma maneira ou de outra, estou conseguindo cumprir. Nem tudo que postei foi redigido exclusivamente para blogueiros. Exemplo disto aconteceu no último...

Agora estou em casa... Mas que coisa chata! Agora estou aqui, agora estou lá! Agora estou acolá! O leitor não está nem um pouco interessado em saber onde estou. Que mania é essa... Parece esse papo de twitter. O sujeito escreve toda a sua rotina, o que vai fazer, o que não vai, e uma infinidade de coisas... Para todo mundo ler, para que todos saibam...

Eu só quero escrever algo interessante. Agora, diante do teclado, dou continuidade ao texto, sem me preocupar muito com as palavras, frases e construções. Mentira. Estou sempre preocupado com isto. Mas talvez agora esteja menos preocupado... Exemplo disto é que até deixei um parágrafo com o pensamento solto, sem fechar, sem concluir. Pode dar uma olhada nas linhas anteriores. Vai encontrar também repetições de palavras. Mais até do que recomenda o figurino...

Mas sendo sincero contigo, leitor, devo dizer que não estou sem ideia não. Tudo isto é apenas um truque. Na verdade, no banho de ontem tive uma ideia. Resolvi escrever sobre a estória das minhas ideias. Nada longo, pois ninguém tem paciência hoje em dia para ler. Então comecei do jeito que você viu, falando sobre não ter ideia e coisas do tipo, para depois chegar neste ponto de contar sobre as minhas ideias. No entanto, devo esclarecer que, antes desta minha ideia do banho, estava realmente sem ideias. Tinha umas, ocorria-me outras, mas nenhuma me agradava. Até que a própria dificuldade conduziu-me a esta estória, onde contarei como consegui driblar a falta de ideias. Aliás, neste parágrafo, o que mais tem é ideia. Não ideia de verdade, com aquele significado e emoção, com a luz que acompanha as melhores delas (pudera que em estórias em quadrinhos ela é representada por uma lâmpada...). Não é destas ideias que este parágrafo está repleto. Ele está repleto, cheio mesmo, é da palavra ideia. Até agora foi uma dúzia delas. Uma dúzia de ideias. Opa! Agora são treze. Está fácil de contar, pois eu estou brigando com o Word. Escrevo “ideia” sem acento e ele insiste em sublinhar de vermelho. Assim fica fácil de contar... Mas vamos logo à estória das minhas ideias, antes que, de tanto enrolar, minha intenção de escrever algo curto vá por água abaixo.

Posso começar pela própria ideia desta crônica, que aconteceu debaixo do chuveiro, que é um ótimo lugar para ter ideias. É quando estamos relaxados, com a mente solta... Mas não posso mentir. Desta vez não estava relaxado. Na verdade brigava com a minha mente. Buscava uma ideia, insistia para que ela aparecesse. Então, recordando-me dos momentos em que tive as melhores ideias (pelo menos as que eu julgo serem melhores...), acabei por achar que estes momentos poderiam compor uma crônica interessante... Mas, antes de começar a contar sobre estes momentos, aviso ao leitor que, daqui pra frente, ao invés de escrever “ideia”, escreverei “i”. Estou cansado de repetir a palavra “ideia”. Só neste parágrafo foram seis. Com mais quinze do parágrafo anterior, com mais... Chega! E tem mais, esta minha i de escrever i tem a vantagem de não ser sublinhada pelo Word. Isto mesmo, acabei de descobrir que o Word não sublinha a palavra i!

Geralmente o que me motiva a buscar i são os concursos. Há alguns meses atrás, estava batalhando para ter uma i de uma estória infantil. O concurso era bom e merecia um texto caprichado. Matutei, pensei, espremi os neurônios. No banho, andando, fazendo o “número 2”, sei lá onde! Só sei que a i não vinha. Mas comigo a coisa funciona assim: eu estresso a cabeça e depois vem a resposta. Estava enxugando os pés, após o banho, e veio-me na mente o seguinte: “futebol de minhocas”. Pronto, este seria o título. Uma i realmente maluca. Onde já se viu minhoca jogar futebol?

A i do meu primeiro livro ocorreu-me em um momento de felicidade. Aliás, tenho as melhores i quando estou feliz. Estava no quintal de minha casa, um local que aprecio muito, com árvores, natureza. Desejei que aquele momento ficasse congelado, que não mais saísse dele... E foi assim que surgiu a i do romance “Duas Horas”, que fala sobre congelamento do tempo e outras coisas mais...

Em uma outra ocasião, depois de ter buscado alguma boa i por semanas e semanas, estava lendo no ônibus fretado, voltando do serviço. De repente, algo que ouvi, algo que uma colega minha disse para quem estava ao lado dela, pareceu-me justamente que uma ou duas palavras específicas que ela disse (falava sobre conserto de lavatório, se não me engano), parece que estavam escritas na página que eu lia. Impossível! Os assuntos, o que ela falava e o do livro, eram totalmente diversos. Voltei então para as linhas anteriores e procurei por “lavatório”, “pia” ou coisa parecida. Não encontrei. Então foi justamente aí que a i surgiu: e se existisse um livro que captasse o pensamento dos outros? Pronto, daí pra frente foi só escrever a novela que estava buscando (“Livro Aberto”).

Certa vez, voltava a pé para casa, chegando do serviço. Então alguém chamou: “Fabrício!”. Isto foi suficiente para desencadear mais uma i. Pensei que alguém estava me chamando de Fabrício. Veio-me à mente: “e se eu estivesse ocupando o corpo de um tal Fabrício?”. Restou somente desenvolver um pouco mais para poder escrever um conto que fala sobre troca de corpos.

Assim está bom. Como disse, não quero alongar este texto. Acho que já deu para perceber como é a estória das minhas i... Lembro-me agora que uma vez estava buscando uma i para um concurso de contos. Enterrei a cabeça no teclado, com a seguinte determinação: “só vou levantar quando surgir uma boa i”. Várias i vieram à mente. Comparava-as, buscava outras. Assim fiquei por um longo tempo... Até que encontrei a i certa! ... Bem, como disse, assim está bom. Forçadas ou naturais, as i trazem sempre consigo uma sensação maravilhosa. É muito bom ter i! O mundo está cheio delas! São tantos filmes, tantos livros, shows, músicas, tanta informação... Muitas, muitas i! E quanto mais parece que elas acabaram, que não há mais nada para inventar ou criar, mais elas aparecem. É poço sem fundo mesmo!


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30/09/2009 23:41

MEMÓRIA

Dia 15 de Outubro de 2009

É o dia do meu aniversário. Quarenta e cinco anos. Bem vividos. Não posso me queixar da vida que levei até aqui. Bom emprego. Sempre trabalhei naquilo que quis. Na verdade, sempre trabalhei em uma única coisa, nunca me imaginei fazendo algo diferente. Sou publicitário. Adoro fazer propagandas. Curto muito ter ideias. Mesmo agora, quando tenho minha própria agência e não precisaria botar a mão na massa, porque trouxe para mim os melhores profissionais do mercado, cuja função é criar e colocar em prática as melhores campanhas publicitárias (e cumprem), mesmo agora e com tudo isto não consigo me distanciar das ideias. Saio do meu escritório e percorro toda a agência. Visito todas as equipes, todos os projetos. Em cada um deles, procuro contribuir. Dizem os meus funcionários que minhas ideias são geniais. Desconfio de suas opiniões. Fazia o mesmo quando era funcionário também. Todos elogiam o dono da agência de propaganda. Hoje me seguraram após o expediente. Festa-surpresa. Que surpresa que nada! Todo ano é a mesma coisa. Mas eu adoro tudo isso. Disse que queria chegar mais cedo em casa, comemorar com a família. De nada adiantou. É sempre assim. Mas nem tudo ocorre sempre da mesma maneira. Hoje aconteceu uma coisa que nunca havia acontecido comigo. Esqueci-me do nome da minha secretária. Seria normal se ela estivesse comigo há apenas alguns dias, uma semana por exemplo. Mas não, ela está comigo há sete anos. Esqueci-me completamente, na frente de todo mundo. Depois deste incidente, a festa não foi mais a mesma.

Dia 17 de Outubro de 2009

Estamos todos no carro. Acabamos de sair para jantar fora. Família toda reunida. Dou muito valor para isso: reunir a família. Vejo muitas pessoas que não conseguem essa façanha. Com os filhos já na pré-adolescência, a partir desta fase já não são capazes de segurá-los. Eles querem os seus próprios programas e, muitas vezes, sentem vergonha dos pais. Mas com a minha família é diferente, graças a Deus. Um casal de filhos. A menina, mais velha, ainda este ano completará quinze anos. O menino, ainda este ano também, fará aniversário: dez anos. E por falar em aniversário, é para comemorar o meu que estamos saindo agora. Todos bem acomodados no espaçoso carro. Conforto e espaço: dois elementos que não dispenso em minha vida. Está certo que só mais ultimamente, mais ou menos quando o caçula nasceu, minha carreira deu uma alavancada com a nova agência, foi a partir daí que pude realizar melhor os meus planos de conforto e espaço para a minha família. Nada lhes falta. Tudo de bom e do melhor. Acostumaram-se rápido à boa vida. Faço questão que minha esposa fique distante das atividades desgastantes e rotineiras da casa. Pago três empregadas para isso mesmo. Estimulo-a para que faça cursos, que ocupe o seu tempo com atividades mais nobres. E por falar em tempo, já é hora de eu me lembrar do restaurante para o qual estamos indo agora. Vamos comer no XXXXXXXX, disse ela com naturalidade. Já faz uns três anos que vamos lá e, realmente, o serviço é de primeira, completou. E eu fiquei no ar. O nome do lugar entrou pelos meus tímpanos e não encontrou correspondência alguma no cérebro. Vazio completo. Não quis perguntar. Era o segundo grande lapso em minha memória. Não podia perguntar, pois era meu dever saber onde ficava esse tal restaurante. Pensei que, entrando no carro e saindo para a rua, assim então o automatismo tomaria conta de mim, meu corpo obedeceria à força da rotina e conduziria todos nós ao lugar certo. Mas não. Instantes preciosos se passavam e eu não sabia para onde ir, para onde estávamos indo. Todos nós, preparados e bem vestidos. E eu totalmente perdido. Foi bastante constrangedor. Só isso. Nada mais a comentar. Não vale a pena comentar ou detalhar. Só dizer que foi uma situação muito constrangedora que passei diante de minha própria família.

Dia 17 de Novembro de 2009

Terça-feira. Devia estar na agência, mas estou aqui, na sala de espera de um consultório, a dezenas de quilômetros do meu trabalho. Chove forte lá fora. Muito forte. Ligo para minha secretária e deixo algumas orientações. Pelo jeito demorarei bastante até lá chegar. Toca o celular. É minha esposa. Dá o recado da minha sogra, que acabou de ver pela televisão que a cidade está um caos. Fala-se até em temporal. O dia promete. E pensar que pouco passou das oito da manhã. Além do mais, dizem que vários varredores de rua foram dispensados e, como consequência, enchentes e alagamentos serão ainda mais intensos. Tranquilizo minha mulher. Digo-lhe que seguirei para o serviço com calma e cuidado. Ela me recomenda fugir dos perigos e alagamentos. A chuva melhora, fica bem fina, depois vem uma nova carga. E eu esperando. No banco ao lado uma mãe e seu filho. Ele faz movimentos de vai-e-vem com o tronco. Penso em autismo. Pouco depois, os dois estão se abraçando. Ele chora e eu tenho a impressão que sua mãe faz o mesmo ao tentar consolá-lo. Fico comovido. Gritos soltos, choros, inquietações. E no meio deste sofrimento do garoto percebo o meu engano: não é garoto, é garota. Talvez a mesma idade da minha filha. Mas dentro deste seu corpo adolescente está uma criança que não consegue se controlar. Deprimido, olhando timidamente, vou ficando cada vez mais pesado ao ver o peso daquela mãe. Tem em seus braços um neném. Pesado. Mal consegue carregá-la. Mas o faz, heroicamente, para tentar acalmá-la. De vez em quando um grito escapa da garganta da jovem. Mais que um grito. É terrível. Um sopro de lamentação. É chocante ver que dentro de uma moça agita-se um ser com reações primitivas, descontroladas. Emite sons guturais, grunhidos. Pouca consciência tem de si e do mundo. Mas sofre, aprisionado. E quem está ao seu lado sofre também. E eu, ao seu lado, comparo-a com minha filha. E o contraste daí gerado aumenta ainda mais a minha angústia. Mais uma carga de chuva lá fora. A terceira. Na próxima calmaria aparece o doutor. O tempo ruim certamente o atrasou. São quase nove horas. Com justiça, mãe e filha passaram a minha frente. Afinal, o meu caso some perante um fardo tão grande. O que é um problema passageiro de pequenas falhas na memória? Mas, agora vendo a porta fechada do consultório e por trás dela o peso que me forçava a comparações, assim isolado do outro, o meu problema começa a ganhar espaço. Lembro-me da festa de debutante de minha filha, no sábado passado. Pai, agora é a hora. É só fazer como a gente ensaiou, disse-me ela. Ensaiou o que?, perguntei-lhe. A valsa, pai, a valsa, insistiu ela, sem conseguir esconder os sinais de tensão. Tudo para mim era estranho. A palavra “valsa” não encontrou eco. Bateu no vazio. A única coisa que me vinha à mente era o tal bombom, “sonho de valsa”. Era como se o chão me fosse tirado debaixo dos pés. Sabia que estava esquecendo algo. Algo grande, grandioso. Importante, muito importante. Não acredito como consegui esquecer! É incrível como de repente apagou tudo. Nem sequer imaginei que deveria dançar. Para mim, valsa no sentido de dança não existia. Via a expressão de minha filha desmoronar-se. Da tensão passou para a apreensão, como se estivesse preocupada comigo. Depois tomou um ar de decepção. E, por último e mais difícil de suportar, foi vê-la entrar em meus olhos com os seus, cheios de dó e piedade. Sentia suas mãos trêmulas e suadas tentando me conduzir para não sei o que. Agora sei que queria fazer-me dançar a valsa, a tão sonhada valsa que para ela seria o ponto culminante da festa. E o maldito papel do bombom era tudo que me vinha à mente. Sonho de valsa. Chega até a ser cômico. Mas não é. É trágico. A tragédia sufoca a comédia. E eu me sinto sufocado. Mesmo agora, dias depois, o peso permanece. Sei que por trás da porta fechada do consultório existe um peso muito maior. Mas o meu é grande. Oprime o meu peito. A porta fechada do consultório torna-se aberta. É a minha vez. Após ouvir o meu caso e coçar bastante a barba, o médico me dá uma receita, algumas guias de exame e uma série de recomendações. Diz que o estresse pode ter desencadeado o processo. Ah! O estresse! Ele está em todas mesmo. Fala que não dá para saber ao certo o que eu tenho. O cérebro é um mistério! Se você que é o especialista não sabe, como é que eu faço? Os exames ajudarão no diagnóstico, explica-me ele. Mas que eu podia ficar tranquilo, que não desse muita importância aos esquecimentos. O remédio iria ajudar. Caramba! Mas precisa ser faixa preta! Vai me ajudar a dormir melhor, disse-me o doutor. Para o cérebro, o sono é tudo, sentenciou. Por fim, quando eu estivesse com os resultados de todos os exames, era para voltar. Ah, também disse que era muito importante que eu continuasse a escrever. Isto porque cheguei a comentar deste meu diário. Que era uma espécie de “diário literário” ou coisa do tipo. Reforçou que a escrita ajudaria no meu processo, organizaria o pensamento. E assim saí do consultório naquela terça-feira em que o céu desabou. A cidade estava um caos. Depois de quatro horas de volante desisti de chegar na agência. Em um dia destes o trânsito trava. Trava. Como a minha memória de vez em quando.

Dia 22 de Janeiro de 2010

Hoje é uma sexta-feira. Estamos indo viajar. Carro carregado de bagagens. Minha esposa quer que fiquemos no hotel toda a semana que vem. Mas eu acho que não precisa tanto. Até terça ou quarta-feira no máximo está bom. A estrada está cheia, consequência do feriado da segunda. No aniversário da cidade todo mundo sai dela para passear, viajar, fugir enfim da correria. O engraçado é que é a maior correria para fugir da correria. As pessoas levam a ansiedade para onde quer que forem. Praia, campo, qualquer lugar. Mas a minha esposa quer que o nosso carro seja justamente uma ilha de tranquilidade em meio a esta insana e desesperada fuga da cidade. Faz comentários que tentam suavizar o peso do congestionamento. Quer me fazer esquecer de qualquer estresse. Recomendação médica. Fazer-me esquecer do estresse para que eu possa deixar de esquecer e assim me livrar do meu terrível problema de perda de memória... Nos últimos dois meses a minha situação se agravou bastante. Grandes vazios completos. Palavras, nomes, lembranças. Coisas que não poderia e não deveria ter esquecido. A piora do meu quadro certamente motivou minha esposa a vir com uma conversa de eu tornar o estagiário sócio na agência. É preciso explicar que estagiário não é o seu cargo. Foi, há muito tempo atrás. E acabou virando o seu apelido. Todo mundo na agência lhe chama de estagiário. Então, de umas duas semanas para cá, ela vem insistindo com esta ideia. O estagiário é muito competente, mais que um braço direito, disse ela. Nós o conhecemos há bastante tempo. Mostrou ser confiável... Se você colocá-lo como sócio, acho que não se arrependerá. Além do mais, pensando bem, seria bom que você tirasse um pouco o pé do acelerador... E assim ele foi falando de uma maneira contida, reservada, com medo de me ofender. Mas acabou me ofendendo. Não precisava ter dito que o estagiário é bem mais novo que eu. “Bem”, uma palavrinha de três letras que tornou seu comentário muito mais pesado. Ele está com pique total, continuou minha esposa, pode fazer muito pela agência. Assim você poderá relaxar um pouco. Isto fará bem para você, lhe ajudará com esse problema de memória, porque você sabe, o médico disse que... Uma buzinada lhe interrompe a frase. Não continuou. Foi bom, melhor assim. Outra buzinada. E mais outra. Várias. Quanta imbecilidade. Desde quando um congestionamento de quilômetros e quilômetros pode ser dissolvido ao sabor das buzinas? Quero mesmo é que o som destas buzinas entre na minha cabeça, que esta alta frequência (apesar de irritante) possa penetrar meu córtex cerebral e agir de alguma maneira, atuar mágica ou milagrosamente em meus neurônios para, enfim, fazer-me recobrar a memória, para que ela não me puxe o tapete, não me coloque em situações constrangedoras, não machuque a mim e a minha família... É por isto que minha filha não quis vir com a gente. Certamente está com vergonha. Vergonha de mim, do seu pai. Acabou ficando com a tia. E a mãe, minha esposa, continua a esforçar-se por encontrar comentários positivos. Mas o fato é que minha memória não vai nada bem, estamos no meio de um enorme congestionamento, minha filha não veio porque tem vergonha de mim, minha esposa quer que eu divida a agência porque vê que não estou bem e... E aqui no carro está faltando minha filha. Já não consigo reunir toda a família. Já não consigo mais.

Dia 19 de Julho de 2010

Não sei se o médico está muito certo no que diz. Acho que ele está meio perdido. Não acertou com o remédio. Na verdade são os remédios que me “acertam”. Cada um é uma tacada na minha química cerebral. Desorganizam-me. Um tira o meu apetite por completo. Outro me faz comer demais. Um tira o sono, põem-me elétrico. Outro derruba-me, por mais que durma, nunca é suficiente. Tontura me causa o comprimido rosa. Dor de cabeça, o branco. E assim acabo me tornando um balão de ensaio. Sensações e percepções alteradas pelos psicotrópicos. Receituário azul, faixa preta. Ou senão é faixa vermelha, mas com receita presa na farmácia. Por fim, em meio a toda esta guerra farmacológica, permanece incólume, invulnerável, a minha perda de memória, os meus humilhantes e desgastantes “brancos”. Vazios, hiatos, que ocorrem naquelas coisas que me são mais caras, mais próximas, justamente para me machucar mais. E o médico parece ficar cada vez mais perdido. Acho que ele está voltando para os primeiros remédios. Será que já se esqueceu do que já me receitou? O esquecido aqui sou eu! Brincadeirinha. Deve estar tudo anotado na minha ficha. É que ele já não sabe mais o que fazer, o que receitar. Enquanto isso, minha vida está desmoronando. Vou na agência só dois dias por semana. O estagiário, meu sócio, está tocando muito bem o serviço. Minha filha meteu-se em uma tribo gótica. Só veste preto. Maquiagem preta. Humor negro. Na verdade, nem humor negro é. Se fosse, até que seria bom. Algum tipo de humor, pelo menos (humor negro é o que mais me faz rir). Mas não, parece que dentro dela não há humor algum. Vazio completo, como minha memória.

Dia 23 de Julho de 2010

Estou internado. Depois da última consulta, na terça-feira passada, aí bagunçou tudo de uma vez. Também, o doutor resolveu mudar a medicação... Não é o fato de ter mudado, porque é isso que ele vem fazendo nos últimos sete meses. Não é o fato de não ter acertado, porque é isso que vem acontecendo desde novembro do ano passado. O problema foi que, com este último remédio, aconteceu de eu dar uma “apagada”. Na verdade, foi mesmo um “apagão”. Tomei o remédio na terça-feira de noite, antes de me deitar. E, para mim, a quarta-feira não existiu. Somente na quinta-feira fui tomar consciência, perceber que estava vivo e interagindo com o mundo e as pessoas. Como disse, para mim a quarta-feira não existiu. Mas a minha esposa me contou o que aconteceu neste dia. Disse-me que não me lembrava de ninguém, que não reconhecia nenhum familiar. Estava perdido em minha própria casa. Como se fosse um extraterrestre, tudo para mim era novidade. Apesar de todo este incrível esquecimento, ainda conseguia falar, conversar normalmente. Contou-me que todos ficaram bastante perturbados. O médico foi chamado com urgência. Conversou comigo, fez uma série de perguntas. Como de costume, coçou bastante aquela sua barba. Por fim disse, com uma expressão séria e pesarosa: temos que interná-lo. Quando minha esposa me disse estas palavras do médico, neste ponto ela se emocionou bastante. E foi assim que ontem, quinta-feira, ela me explicou, com lágrimas nos olhos, que o melhor para mim e para a família seria a minha internação. Tentei argumentar, dizer que a culpa era do remédio. Não adiantou. O médico havia sido taxativo. A família estava convencida. Cheguei até a falar que internação é quando o paciente representa perigo para a sociedade, quando o sujeito não consegue viver junto com os outros, quando atrapalha e interfere consideravelmente na vida daqueles que o cercam. E que o meu caso não era nada disso, que apagar por um dia inteiro, mesmo que não fosse culpa do remédio (mas eu sei que foi), mesmo assim não havia mal algum. Não tinha sido agressivo. Perguntei para minha esposa e ela me disse que eu estava calmo na quarta-feira. Mas acho que acabei assustando. Não é fácil ver um parente tão próximo assim tão distante. Como se dentro dele nada existisse. Eu compreendo. Todos em casa devem ter ficado com medo. Foi por isso que a internação foi aceita com relativa facilidade. Foi por isto que hoje, sexta-feira, dois dias após o apagão, cá estou eu na clínica, internado.

Dia 15 de Outubro de 2010

Hoje é dia do meu aniversário. Aniversário pela metade. Menos da metade. Pelo que ainda resta de mim. Comemorando nem sei o que. Dando vivas a um ser que desmoronou, que viu sua vida implodir. O pessoal da clínica apareceu com um pequeno bolo. Bem no centro dele uma vela miúda, raquítica e magra. Igual a mim. Bem que eu queria emagrecer, perder barriga. Mas não deste jeito. Não às custas de perder contato com minha própria vida, de ver minha família, minha esposa e filhos, de vê-los se afastarem de mim. Deixando-me aqui depositado, como uma coisa qualquer que não presta mais. Até compreendo porque agem assim, porque chegaram a este ponto. O doutor da clínica, meu novo doutor, disse-me ele que quase todas as vezes que aqui vieram me visitar, minha mulher e meus filhos depararam-se com a minha ausência. Os apagões são freqüentes. Vivo mais tempo como um extraterrestre que nada sabe sobre este mundo. Deve ser chocante sair de casa para visitar o pai, o marido, sair com o coração cheio de saudade, cheio de vontade de conversar, e no fim... No fim encontrarem algo que não é nem sombra do que esperavam encontrar. Uma casa vazia. Pior: com um estranho dentro. Um E.T. retardado que nunca aprende as coisas deste mundo, que a cada vez que aparece vem com a mente zerada, que só sabe conversar e perguntar sobre tudo, como uma criança. Foi assim que meu novo doutor me explicou sobre estes tais apagões que estão invadindo minha vida. Então dá pra entender porque estão se afastando. Mas minha esposa disse que hoje ela viria. Hoje, dia do meu aniversário.

Dia 11 de Novembro de 2010

Tenho a impressão de que a próxima vez que o apagão tomar conta de mim, tenho a sensação de que desta vez, de que a próxima vez, será pra valer. Acho que não voltarei mais. O apagão será permanente. Como a morte. E por falar em morte, hoje minha filha apareceu aqui na clínica. Toda gótica, de preto, maquiagem preta. A tinta do cabelo brilhando, de tão negra que era. Veio acompanhada de um rapazinho miúdo, com grandes olheiras. Dois buracos-negros que se atraíam. Acho que estão namorando. Hoje ela faz dezesseis. E por falar em aniversário, minha esposa não veio no dia do meu. Disse que viria, mas não veio. Eu tenho certeza que não apaguei. Perguntei para o médico. Ela que não veio mesmo. E agora, no aniversário de nossa filha, aparece com o estagiário. Meu filho também veio. Ele está grande, bonito, cresceu bastante. Pena que eu estou assim deste jeito. Um pai vaga-lume que mais permanece apagado do que aceso. Mas eu vi. Infelizmente eu percebi. Algo havia entre minha esposa e o estagiário. Pensando bem, hoje é um ótimo dia para apagar de vez. Ótimo dia.


Ademir Moreno Aguilar | Comente este texto (1)



30/08/2009 14:44

NINGUÉM LÊ

Você não vai acabar de ler este texto. Ao notar que tem mais de uma página, ou que precisa rolar a tela do computador, logo vai desistir. Não há tempo a perder.

Vivemos em um mundo que está explodindo em informações. Não dá para processar tudo, temos que selecionar. Temos que resumir, sintetizar.

A nova onda agora é o twitter. Ninguém pode passar de 140 caracteres. Alguém deve ter definido que acima disso seria enrolação. Então parte-se para a linguagem rápida, telegráfica. Foi criado um novo dialeto na escrita: o eme-ésse-enês (MSNês). Todas as regras de todas as línguas foram quebradas. Com os argumentos da praticidade e rapidez, o MSNês passou por cima de tudo. Se estivesse no twitter, este texto não teria nem passado do primeiro parágrafo, logo acima.

É a ditadura da velocidade. Escrever, dentro deste cenário, é um verdadeiro desafio. O leitor é aquele sujeito escorregadio, sempre pronto a interromper a leitura, que não se prende a nada porque não tem tempo a perder. Verdadeiro troféu para qualquer escritor é segurar o leitor até o fim. Mas muitos chegam até o final dando uma “passada” pelo texto. A “leitura dinâmica” é a assassina da literatura. De que adianta o texto ter sido escrito com todo o cuidado e esmero, se os olhos passarão pelos parágrafos como verdadeiros “tratores turbinados”?

Esta explosão de informações está provocando uma resistência natural nas pessoas. Devido ao enorme volume de coisas inúteis que nos bombardeiam, fechamo-nos cada vez mais. São os SPAMs que infestam o nosso e-mail, as mensagens indesejáveis que não param de chegar em nosso celular, dia após dia, as ligações de telemarketing que surgem nos piores momentos, os panfletos e mais panfletos que despejam pela janela do nosso carro...

Em meio a tantos livros, filmes, revistas, notícias, novidades tecnológicas, apelos de consumo, modismos, músicas, etc., etc., etc. ... Em meio a tudo isso, o método mais seguro de filtragem e seleção parece ser aquele baseado em rankings. Os dez livros mais vendidos, as cem músicas mais tocadas ou acessadas na internet, os filmes que ganharam o Oscar, o que todo mundo está usando, o que aparece na novela, e por aí afora...

A crueldade deste esquema são os rótulos que não acabam mais. Para que alguma coisa seja boa e mereça que eu dispense parte do meu escasso tempo para um contato maior que o superficial, para que algo atinja este status é imprescindível que esteja entre as primeiras posições do ranking. Se um sujeito qualquer escrever um ótimo texto e botá-lo para rodar no oceano de e-mails, mas com a sua assinatura, fatalmente será desprezado. O passe de mágica acontece quando ele coloca, como autor, um nome do tipo Arnaldo Jabor ou Luis Fernando Veríssimo. Pronto! O mesmo texto será fartamente lido, admirado e distribuído por todos. Vivemos em um mundo que repousa sobre os pilares dos rótulos e imagens.

Assim sendo, se você chegou até este ponto, então estou diante de uma pessoa diferente. Não, não foi mérito meu segurá-lo até aqui. Você é diferente mesmo. Continue assim. Afinal, alguém tem que ler as coisas que eu escrevo... E obrigado!


Ademir Moreno Aguilar | Comente este texto (5)

RELAÇÃO DOS TEXTOS DESTE BLOG:
TÍTULO.......DATA PUBLICAÇÃO
Crônica do Rasgo.....04/01/10
Linha 01..................13/12/09
Poço sem fundo.......15/11/09
Memória..................30/09/09
Ninguém lê..............30/08/09
Congelando Moscas...................07/08/09
A Árvore da Ponte....09/07/09
Blog das Cavernas...09/06/09
Cigarro para Não Fumantes...............01/05/09
Rato.......................05/04/09
Meia Hora...............07/03/09
Quem Teve a Idéia de Tirar o Acento da Idéia?.....01/02/09
Dia 23 de Dezembro...............31/12/08
Domingo no Parque...................30/11/08
Congestionamento..03/11/08
10: GO TO 10...........30/09/08
Gases no Elevador...03/09/08
Memórias de um Aspirante a Escritor...................03/08/08
Resquícios de um Vestibulando...........29/06/08
O Pombo Zap...........01/06/08
O Misterioso Conto de Cícero.....................27/04/08
Fim do Mundo..........30/03/08
O Sonhador.............16/03/08
Lúcia Sai Correndo...02/02/08
Frieza.....................29/12/07
Era uma vez um Leão.......................25/11/07
Manifesto................10/11/07
Milene.....................28/10/07
Conto Instantâneo...12/10/07
"TUM".....................30/09/07
Bem-te-vi...............15/09/07
Leucemia................02/09/07
A Pomba.................18/08/07
Extinção.................05/08/07
Chamada a Cobrar...21/07/07
Fabrício..................08/07/07
O Muro Cinza...........30/06/07
Paranapi... Será que... Acaba?...................23/06/07
A Tortura................09/06/07
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